14.6.21

Dez Anos por Aqui

PIRATA 

 Sophia de Mello Breyner 

 Sou o único homem a bordo do meu barco. 
 Os outros são monstros que não falam, 
 Tigres e ursos que amarrei aos remos, 
 E o meu desprezo reina sobre o mar. 

 Gosto de uivar no vento com os mastros 
 E de me abrir na brisa com as velas, 
 E há momentos que são quase esquecimento 
 Numa doçura imensa de regresso. 

 A minha pátria é onde o vento passa, 
A minha amada é onde os roseirais dão flor, 
 O meu desejo é o rastro que ficou das aves, 
 E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

27.1.21

Ao Rio

 

Paul Cézanne - Bridge across a pond - 1890 - Puskin Museum

AO RIO


Ó rio – clepsidra de água metáfora da eternidade

entro em ti cada vez tão diferente

que poderia ser nuvem peixe ou rocha

e tu és imutável como o relógio que marca

as metamorfoses do corpo e as quedas do espírito

a lenta decomposição dos tecidos e do amor



eu nascido do barro

quero ser teu aluno

e conhecer a fonte o coração olímpico

ó tocha fresca coluna cantante

rochedo da minha fé e do desespero



ensina-me ó rio a ser teimoso e persistente

para que mereça na última hora

repouso na sombra do delta imenso

no sagrado triângulo do princípio e do fim


Zbigniew Herbert //Tradução: Ana Cristina César e Grazyna Drabik