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25.7.12

E o índio estava certo



Como é bom conhecer lugares mágicos. A Patagônia é um deles.
Lá a natureza em macro se debruça sobre nós. A luz mais austral é belíssima e varre a paisagem em diagonal , formando contornos incríveis.




E curiosamente , lá estando, todos os parâmetros por nós conhecidos vão se alterando. Quando você se dá conta, está comendo somente o necessário. Se andou muito , gastou muita energia, come mais. Se choveu e ficou dentro de casa lendo, come menos. É instantâneo e entra sem você perceber.




Mas o que me perturbou mais foi a alteração da percepção da passagem do tempo. Cinco minutos lá demoram muiiiiito para passar. Todas as tentativas de nosso grupo de prever que horas eram deram errado, e muito !




No segundo dia de estadia tínhamos a sensação que estávamos lá há uma semana!  É muito impressionante e ao mesmo tempo compensador, estranhamente novo.




Por conta dessas reflexões sobre o tempo, lembramos da história  do índio mexicano, que como guia de uma caminhada na mata, pedia para que a caravana parasse em certos trechos, em tempos indefinidos, porque precisavam esperar para que o espírito chegasse junto. Mistérios de uma natureza poderosa e desconhecida.



Fatos curiosos começaram a acontecer comigo quando voltei para casa.


Na primeira noite, acordei no escuro, como sempre faço, e levantei para tomar água . Estava em meu quarto, e não conseguia achar a porta de saída. Fiz algumas tentativas, fiquei desacorçoada, não era urgente, voltei para a cama meio transtornada. Respirei e depois de um tempo, tentei novamente e aconteceu a mesma coisa, saí batendo o nariz no armário, mas então morria de rir da estontice ! Tateando acendi a luz sem querer e me achei. Ufa! 


Na noite seguinte, muito resfriada , fiquei um tempo ponderando onde eu iria encontrar uma farmácia para comprar um remédio . Fiquei fazendo planos de sair do hotel para a esquerda , pois lembrava que havia visto uma farmácia por lá. Nesse dia eu já estava em Buenos Aires... Acordada me vi novamente em minha cama .


Meu espírito ainda não havia chegado A natureza tão forte, me aprisionou por lá mais um pouco. Quanta regalia!





16.7.11

Memória de Paisagens


Diz a lenda que vieram da casa de “Pederneiras”,  lugar mítico que jamais conheci, nem de longe, onde meu avô era o médico da pequena cidade. Minha mãe vivera ali a primeira adolescência nos intervalos de  férias do internato, na década de 30. Desde que me conheço por gente, volteavam e arrematavam um pátio da casa de minha avó, agora na Rua Pedroso, pois a acompanharam  na mudança para SP . Cresci olhando para eles . Eram azulejos art nouveau com relevos, compondo uma cena aquática onde cisnes branquíssimos nadavam em linha reta sobre ondas de um azul profundo, intercalados por nynphéas,  “vitória régias” francesas do fim  do século XIX. Seus tons  de azul e verde eram limpos e claros e me fascinavam.

Quando esta casa foi desapropriada e demolida para a construção do Viaduto Pedroso, os azulejos foram novamente retirados e transportados até a obra que minha mãe construía em uma chácara, estágio preparatório para sua aposentadoria. Alguns adornaram o banheiro e outros enfeitaram um poço que ficava num meio de caminho de jardim. Meus pais viveram alguns anos ali, até que,  depois de uma doença comprida,  meu pai morreu
Minha mãe, mulher seca,  forte, independente e mandona, resolveu continuar sozinha no mato. Os anos foram passando e essa opção foi se mostrando cada vez mais inviável. Até que um dia  a onipotência começou a dar espaço para o medo e a solidão gritou mais forte . Ela decidiu que era tempo de voltar para a cidade.A chácara seria vendida e a única coisa que pedi foram os azulejos.
Sabendo da sua antiguidade  , da beleza e do valor muito além do sentimental, comecei a pesquisar quem poderia ir retirá-los dali sem danificá-los. Enfim já eram relíquias !
Mas infelizmente não consegui ser mais rápida que o destino.
Certo dia, indo ver minha mãe, ela me avisou que eu devia passar com o carro pela garagem, que os azulejos estavam ali a minha espera. Solícita, havia mandado o caseiro com sua  marreta   e formão retirar todos eles para que eu os levasse.Quando cheguei à garagem, não podia acreditar no que via, cacos estilhaçados dos mais belos azulejos que eu havia visto na vida enchiam duas caixas. Não havia sequer um inteiro. Todos lascados, quebrados, desintegrados. Fiquei em estado de choque. O vazio foi tão imenso e profundo que não deu nem para chorar.
Eu não sabia naquele momento,  mas eram os primeiros sinais de Alzheimer que se manifestavam em minha mãe.