6.4.11

Surpresa da Natureza


Por Thea Standerski

Parece algodão doce!

No Paquistão, no ano passado, ocorreram cheias de enormes proporções.
Aranhas, para se salvar, subiram nas árvores!
Não é um parasita. Tampouco algodão doce...
São teias de aranha!

(Foto: Russell Watkins / UK Department for International Development)

31.3.11

Companheiros de Viagem I

Alberto da Veiga GUIGNARD - Natureza-Morta  1933

Por Tanya Volpe

Ele sempre te olha franzindo a pálpebra e fechando o olho esquerdo, que quase não enxerga. Como para compensar faz um movimento de boca que retorce o rosto e significa que está com a escuta em alerta .

É filósofo especialista em estética e tropicália. Foi professor a vida inteira. Mas isso é muito pouco para defini-lo. É um mestre. Daqueles que conduzem os atentos abrindo portas, desvendando caminhos, alinhavando pensamentos tolos de iniciantes, nos quais, generoso, visualiza encantos escondidos.

É meu  companheiro em muitas viagens que se tornaram memoráveis por isso.

Passeando pelas ruas de Tiradentes ele começou a declamar Drummond. A Máquina do Mundo. Assim, naturalmente, como se contasse uma história. Ao final fico sabendo – “Leio  Drummond diariamente. Ele salvou minha vida” . Em silêncio, olhando as montanhas de Minas, seguimos. Só.

Viajando de novo, me contou ter ganho o primeiro sapato aos 9 anos quando se mudou da fazenda onde nasceu para a cidade, Americana. Desse tempo descalço na terra, lembra o prazer imenso de enfiar os pés cansados na água fria do riacho ao entardecer. Foram suas primeiras experiências com o “sublime”, que só aprendeu a definir mais tarde.

Adora comida simples e bem feita. Descreve com as mãos abertas, os dedos em arco, (talvez reminiscências do tempo em que foi coroinha) , o tamanho do sanduíche de porchetta, delicioso, que descobriu por acaso em uma barraca de rua. Com seu sorriso maroto, quase lambemos os dedos com ele. Adora uma talagada de pinga, das boas, não das caras.

Tem uma sensibilidade sutil e requintada e fala de arte como parte inerente da vida.

Nossas fotos de viagem são poucas, os registros são como esses.

Alberto da Veiga GUIGNARD - Ouro Preto 1953

24.2.11

Divagações sobre o tempo

Deserto do Sahara
Por Tanya Volpe

Vocês podem achar que eu tenho cem anos. Meu neto com certeza acha... Mas , juro, na maioria das vezes me sinto ... (?!?!)  balzaquiana , hum ... quando penso nas coisas que eu ainda quero fazer, lugares a conhecer, livros para ler, inventar, essas coisas...  Eu sei que só preciso não me impressionar com os espelhos .

Em outros momentos confesso que adoro me olhar neles! Nossa !!!  Ainda estou muito bem ! (?!?!?) Para quem está quase chegando aos %&+?#%$@ !!! Duas amigas que acabaram de cruzar o limiar, me asseguram que é bom não me iludir . É completamente diferente completar, e imaginar os %&+?#%$@ . Vamos ver.

Toda essa introdução é para dizer das surpresas que a internet me traz!

Tudo começou com uma  safra de limões siciliano que encontrei no mercado e estavam esplêndidos! Cheirosos , casca brilhante, pequenos no tamanho certo. Era o momento de refazer meu estoque de citrons confits  da geladeira. Não posso ficar sem eles. Entro em crise de abstinência....



Lave e seque os limões. Corte-os em cruz, no sentido do comprimento mantendo os pedaços presos em uma das extremidades. Coloque bastante sal marinho dentro de cada limão e arrume-os bem apertados dentro de um vidro bem limpo. Molhe com o  suco de 2 limões. Tampe (a tampa do vidro não deve ser de metal, se for, proteja-a com um plástico para não oxidar ) e deixe descansando por 1 semana na geladeira. Gire o vidro, uma vez por dia para que o sal e o suco de limão se espalhem por todos os limões . Aí eu encho o vidro  com azeite. (que eu não vou usar, coloco apenas para “proteger” os limões ). Volto então o vidro à geladeira e depois de uma semana já posso utilizar.  Mas, eu prefiro que eles fiquem curtindo mais tempo.
 Ás vezes forma-se um mofo por cima. Não é nenhum problema. Tire-o  quando for utilizar o limão e lave-o muito bem. (não sou  eu quem diz para não se importar com o mofo, várias receitas falam disso e eu já comprovei na prática).

Quando for utilizá-los retire a quantidade necessária, lave bem e descarte o miolo e as partes brancas, Só a casca entra na preparação de pratos marroquinos  como as tajines de frango, carneiro ou vegetais. Serve como condimento para  peixes , ou fica delicioso em uma salada de bacalhau....Como disse, fico insegura se não tenho dessa conserva na geladeira. Dura muuuuitos meses!


Em uma ocasião rara e especial , fazer um jantar para minha sogra e o marido, que moram fora, comecei a planejar o menu. Estou vivendo uma fase “epicée” onde cheiros e sabores me transportam para outros lugares no mundo em viagens imaginárias através do paladar e do olfato.


A conserva de limão que fiz e o cominho em pó que ganhei de uma amiga , vindo direto do Marrocos me inspiraram .Essa  especiaria marroquina “legítima”  é fresca, cheia de vida, instigante! Não tem o cheiro de “gaveta” que encontramos nos cominhos daqui. A mistura, limão e cominho,  lembra  peixe, chama couscous marroquino. E o calor escaldante de fevereiro também.

Resolvi inventar um ensopado de peixe para comer com couscous. Comprei 2 tipos, robalo e cherne. Trouxe as cabeças e espinhas e fiz 2 caldos separados. Queria sentir as diferenças de um e de outro. O de robalo ficou  muito mais gorduroso, portanto mais saboroso porque (infelizmente) as gorduras “transportam “ melhor os sabores. Comprei camarões e também fiz um caldo com as cabeças e cascas.  Pensei que misturando os caldos e reduzindo-os seria um bom começo. Tinha uns mariscos no freezer que eu poderia incorporar no final. Foi o que fiz.

Anoitecer em Marrakesh


Há mais de 30 anos, (.há fatos inegáveis, olhando no espelho ou não...) comprei em uma grande feira de livros velhos e usados em Paris, um livro que se chama “A gastronomia através do mundo” de Raymond Oliver. É um daqueles  livros de capa dura encapada de tecido ”gelo” , com diagramação bem antiga , alguns desenhos e meia dúzia de fotos B&P, mal impressas e embaçadas. Às vezes traz páginas de um laranja espantado bem característico do período.

Nele tem uma receita de couscous Royal, que adotei, com algumas variações devidamente  anotadas em um papel que “mora”dentro do livro, como a minha receita para o prato e tem me  acompanhado em várias comemorações entre amigos, porque é um prato fácil e lindo para fazer para bastante gente.Peguei o livro na estante para lembrar dela e inventar a minha receita para os peixes.

E, pela primeira vez me perguntei (acredita?): quem escreveu este livro? Quando o comprei eu começava a “ampliar” meus horizontes culinários e gostava desses textos de “cultura geral”. O livro, uma edição de 1963 não traz nenhuma informação sobre o autor, que talvez tenha se perdido na sobrecapa de papel que costumava envolver esses volumes. Então, google it!

Em “google it” descobri que o autor era chef e dono do Le Grand Vefour, famoso restaurante “estrelado” em Paris . Foi o primeiro chef a ter um programa na televisão sobre culinária, “ Art et  Magie de la Cuisine” que ficou 14 anos no ar. Ele dividia essa emissão  com  Catherine Langeois , que tem entre outros feitos da sua biografia ter sido noiva  de Miterrand, muitos anos antes de que ele se tornasse presidente da Republica Francesa (e...“bígamo”) . Êta  mundo pequeno!!!!

Na receita, usei échalote, quando eu a encontro adoro, porque é mais suave que cebola , solta um perfume incrível quando está fritando no azeite (ou manteiga) e tem um sabor delicado. Juntei, alho poro, cenoura e erva doce, cortados em cubinhos pequenos (mirepoix), refoguei um pouco, temperei com cominho, gengibre, pimentas.                             
Juntei os caldos de peixe e camarão, e um pouquinho de caldo de galinha que paradoxalmente, equilibra o sabor dos  outros caldos. Depois tomate sem pele e sementes e um amarradinho de cheiros, com salsa, tomilho-limão , coentro, louro. Cozinhei para reduzir a um terço. Coloquei os peixes e depois de 15 minutos os camarões. Contei mais 5 minutos, juntei os mariscos e mais uns minutinhos. Fora do fogo , um punhado de folhas de cerefólio. Servi com couscous marroquino temperado com citron confit, salsinha e ciboulette.


Deserto do Sahara
Tamanho do mundo, velocidade do tempo, ... se der, sente para pensar, ...ou então para comer. Sempre!

Fotos do Sahara e de Marrakesh de Simone Amar ( amiga que me trouxe o cominho fresco)

Nota: O livro traz receitas muito boas que seguem “inteiras”  até hoje. Para mim a comprovação aparece em uma receita de feijoada bem decente, salvo na parte em que o autor manda marinar uma carne e assar para servir junto, que confesso, não me pareceu de todo mal. Imaginei idéias divertidas para cometer essa heresia...

28.12.10

Paisagens Novas

Van Gogh-Portrait of Dr Gachet

Por Tanya Volpe

Você já chorou olhando um quadro ou ouvindo alguma música? . Lendo um livro é mais comum de acontecer, vendo um filme também. Acho que é porque neles há as palavras para mediar. Pergunto dessa comunicação sem palavras com uma obra de arte, quando ela te fisga e te transporta para um lugar de sentimentos indizíveis numa experiência perturbadora.

 Na primeira vez que fui a Paris decidi conhecer o Museu d’Orsay inaugurado há pouco na antiga estação de trem. Museu dos impressionistas, da pequena mas maravilhosa coleção de móveis e objetos Art Nouveau , das esculturas da virada do século XX,  das primeiras fotografias...
 Conhecer um museu pela primeira vez cansa porque você fica com vontade de “aproveitar” bem, não tem ainda os seus cantos prediletos e o passeio pode virar maratona. Pois foi assim dessa vez. Andei por várias salas, olhei milhares de coisas e fiquei exausta. Eu tinha a sensação que havía visto tudo! Me sentei em um banco para descansar quando vi uma portinha. Resolvi entrar para “xeretar”. Que susto!!! Aquela era uma pequena sala de Van Goghs !!!. Quando vi aquilo, de surpresa, na minha frente, não deu ! Comecei a chorar em cascata. O Dr Gachet  que havia ficado pendurado em uma cortiça na minha casa por tantos anos estava ali na minha frente. O  quarto de Arles, uma das noites estreladas, a igreja azul de Anvers! Trabalhos vistos pela vida toda em livros e agora ali, verdadeiros, numa salinha pequena. Fui para o terraço que fica no telhado do museu e olhando o Sena  e a Notre Dame , chorei aos borbotões, agradecida por aquele presente inesperado !

Van Gogh Museum - The bedroom, 1888


Um dia passeando com minha mãe em uma exposição de arte russa , logo depois que meu pai morreu, paramos na frente de um Chagall. Minha mãe que não conhecia o quadro começou a rir descontroladamente , perturbada, porque considerou uma “bobagem”, aquela mulher voando, segura pela mão do companheiro. Naquele momento eu só sabia morrer de vergonha da “gafe” de minha mãe. Demorei anos para realizar que a arte a tinha tocado sem que ela percebesse. Depois de 50 anos de casamento, ficar sozinha no mundo deveria mesmo ser motivo de muito medo de sair voando e não voltar...Perdida, era melhor rir.
샤갈의 [산책], 이 그림을..


Outra vez em NY, entramos em uma concorrida exposição de um chinês Cai Guo-Qiang (pronuncia-se sigh gwo chang) que eu desconhecia.

O trabalho desse artista transita entre os signos e símbolos chineses. Ele  cria instalações usando vários materiais tendo como referência a herança cultural chinesa. Da pólvora,  a medicina tradicional , ao feng shui  seus trabalhos revelam o desejo de achar novas aplicações para essas tradições culturais fora da China.

Na exposição seus trabalhos tomavam todo o Guggenheim do grande vão às curvas da estrutura do prédio. E a medida que íamos subindo e percorrendo a exposição as surpresas e assombros iam se sobrepondo, aumentando o deslumbramento. A cada nova obra parecia que o artista se superava e as emoções também. As instalações, eram seguidas de esculturas, depois vídeos de performances, pinturas gigantescas feitas com pólvora, até terminar em uma grande sala com um barco, relíquia desenterrada na aldeia nativa do artista, “encalhado” em cacos de porcelana branca, imagens de budas, vasos, chaleiras... Um assombro de tirar o fôlego !  Minhas lágrimas eram a expressão mais verdadeira de reconhecimento  e emoção.


Este filme é de Cai descrevendo a criação de uma de suas obras que se chama   “Head On” que também estava no Guggenheim. Ela é composta de lobos que caminham juntos em um grupo coeso e cujos passos vão se acelerando até ir de encontro a uma parede de vidro . Uma barreira invisível que tenta detê-los. É muito tocante e perturbador.

Coloquei aqui para desejar a todos um 2011 muito rico de emoções e que consigamos transpor todas as barreiras com sabedoria , calma, e criatividade. Mesmo as invisíveis !

Bonne Année !





29.10.10

O que não se aprende na escola



Anna Mariani - Jatiúca, Pernambuco/ 1982 - Pinturas e Platibandas IMS 2010
por Tanya Volpe

Tem uma moça nova trabalhando na minha casa .Ela cozinha direitinho,só que eu não posso estar na cozinha quando ela trabalha. Tenho vontade de interferir a todo momento e me meter a “ensinar” como é que se faz aquilo, que ela faz bem, porque resulta em coisas gostosas quando vão para a mesa..

Há tempos venho tentando ensinar a “grelhar” peito de frango ou dourar uma carne de panela. Fechar os “poros” da carne para manter a suculência e deixar bem “crocantinho” sem queimar, são observações que caem no vazio. Ela me olha assustada como se eu sugerisse absurdos. Mas... o frango não vai ficar cru? Não, não vai, depois de dourado abaixe o fogo e fique virando e cuidando que ele vai cozinhando por dentro. É..., (nesse momento concorda comigo) pra cozinhar tem que ficar “cocorando”...Não dá pra largar né? - ela me diz.

Há 2 semanas fomos ver um documentário que um crítico nomeava como sublime. E não pode haver palavra mais adequada para descrevê-lo. Chama-se “Terra Deu, Terra Come “de Rodrigo Siqueira. Vencedor do festival  de documentários “E tudo Verdade” de 2010 .



O filme acompanha seu Pedro de Alexina que comanda como mestre de cerimônias o funeral do amigo João Batista, morto aos 120 anos. Seu Pedro é um contador de histórias fascinantes que vão se entrelaçando, construindo coisas que se misturam e se confundem entre ficção e realidade. Ele, descendente de escravos, foi garimpeiro e é uma das últimas pessoas a conhecer os vissungos - cantos num antigo dialeto africano, o benguela. Esses cantos eram usados durante o trabalho nas minas de ouro e diamantes nos séculos 18 e 19 e sobrevivem nos rituais fúnebres. A história acontece no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais.

O diretor escolheu o caminho da invisibilidade para registrar com extrema delicadeza, o que seu Pedro narra e canta, acompanhado de sua família. A encenação se confunde com a realidade e você fica pelos 80 minutos da projeção, suspenso no tempo, e na razão. Num Brasil profundo, reconhecível e desconhecido.

Rodrigo Siqueira, diretor do filme conta: “... Foram 30 dias de filmagens. Mediado pela imaginação, pela memória dos antepassados e de suas histórias, Pedro me levou a um lugar onde o sertão encontra a África de séculos atrás, onde a morte encontra a vida e onde Deus e o “Outro” coexistem.”

Impregnada com a lembrança do filme, e sem saber, comecei a ler “Gastronomia Sertaneja” de Ana Rita Dantas Suassuna. (São Paulo, Melhoramentos, 2010) .


No último evento do Paladar, dona Ana Rita carregava seu único exemplar do livro pelas salas e, como nos trombávamos nas mesmas, pude observá-la falando algumas vezes de seu livro, entrando na primeira brecha que se lhe apresentava. Naquele momento, não tinha, não tínhamos, incluo aqui alguns professores e palestrantes, idéia do que se tratava aquela obra. Com certeza dona Ana Rita estará no próximo Paladar dando um seminário. Difícil vai ser contê-la no tempo de uma oficina, pois sua paixão e conhecimento do tema parecem ser inesgotáveis.

Coloco-o entre um dos melhores livros de culinária brasileira que conheço, pela simplicidade, profundidade na abordagem do tema, pela clareza na escrita, pelo olhar entusiasmado, e, pelo muito que me ensinou.

Passando por alguns capítulos até chegar na parte das galinhas, fui compreendendo porque a moça que trabalha na minha casa não entende o que eu falo. Quantas linguagens existem por esse Brasil .

O frango com quiabo que ela faz é a paixão de meu marido, e, ao me interessar pelos segredos da receita, me dei conta de um fazer culinário totalmente diferente do meu. Escutei quieta, do lado da panela, suas explicações detalhadas, sem me meter a ensinar o jeito “certo”. Depois encontrei a receita da moça no livro, tal e qual, ali explicitada na sua  história e tradição . Quantas coisas eu não conheço!

Esta moça veio da Bahia, as pesquisas de dona Ana Rita são do interior de Pernambuco,  mas como o sertão alem de “estar em toda parte” como dizia Guimarães , alcança uma grande extensão do território brasileiro subindo desde o sul até as bordas da Amazônia, os modos de comer se encontraram. A culinária sertaneja desenvolve diversas peculiaridades através desse percurso, com variedades ambientais tão amplas, mas mantém personalidade marcante.

Personalidade que vem, sem eu saber, se infiltrar na minha casa, nesse jogo do conhecido desconhecido.

O livro e o filme abrem uma porta para o entendimento desses fazeres , mágicos ou concretos do cotidiano, que esses brasileiros trazem na alma , pura poesia trombando no dia a dia para quem quiser olhar.


Anna Mariani - Timbaúba, Pernambuco /1982 - Pinturas e Platibandas IMS 2010

Terra Deu, Terra Come
Direção: Rodrigo Siqueira
Colaborou na direção: Pedro de Alexina
Fotografia: Pierre de Kerchove