14.6.24

Treze Anos por Aqui

 



Com licença poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


Adelia Prado



Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 11)

 




2.6.24

Aniversário do Panforte

 


A ideia de produzir Panforte para comercializar nasceu em um 2 de Junho. 

O ano era 2010. 

As vendas começaram em 2011. 

De lá para cá muita coisa a comemorar! 

Muito obrigada a todos os amigos e clientes, que também se tornaram amigos.

Com eles estamos aqui hoje.

Viva 2024 !

15.6.23

Doze Anos por Aqui

Estou atrás 

do despojamento mais inteiro 
da simplicidade mais erma 
da palavra mais recém-nascida 
do inteiro mais despojado 
do ermo mais simples 
do nascimento a mais da palavra. 

Ana Cristina Cesar ( 28.5.69) em” Inéditos e dispersos” [ organização armando Freitas Filho] . São Paulo : Editora Ática/IMS, 1999.

14.1.23

Livramento

 

Guignard , 1933 - Coleção Cartões para Amalita, Museu Guignard, MG

ARTE POÉTICA

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer


Adília Lopes

 



25.8.22

Rosa Mística

 

                                                         Jean-Bathiste Siméon Chardin


A primeira vez
que tive a consciência de uma forma,
disse à minha mãe:
dona Armanda tem na cozinha dela uma cesta
onde põe os tomates e as cebolas;
começando a inquietar-me pelo medo
do que era bonito desmanchar-se,
até que um dia escrevi:
”neste quarto meu pai morreu,
aqui deu corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte”.
Entendi que as palavras
daquele modo agrupadas
dispensavam as coisas sobre as quais versavam,
meu próprio pai voltava, indestrutível.
Como se alguém pintasse
a cesta de dona Armanda
me dizendo em seguida:
agora podes comer as frutas.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia,
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
Então prossegui: “neste quarto meu pai morreu.
Podes fechar-te, ó noite,
teu negrume não vela esta lembrança”.
Foi o primeiro poema que escrevi.


Adélia Prado

(O Pelicano 1987)


20.7.22

Chapéu de Palha

 

Masao Yamamoto

 

Chapéu de palha 

Matilde Campilho

Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.






14.6.22

Onze Anos por Aqui

Edouard Vuillard - Iris et Pensées, 1901 


 Amor e Sexo 

 Amor é um livro 
Sexo é esporte 
Sexo é escolha 
Amor é sorte 
Amor é pensamento, teorema 
Amor é novela 
Sexo é cinema 
Sexo é imaginação, fantasia 
Amor é prosa 
Sexo é poesia 
O amor nos torna patéticos 
Sexo é uma selva de epiléticos 
Amor é cristão 
Sexo é pagão 
Amor é latifúndio 
Sexo é invasão 
Amor é divino 
Sexo é animal 
Amor é bossa nova 
Sexo é carnaval 
Amor é para sempre 
Sexo também 
Sexo é do bom 
Amor é do bem 
Amor sem sexo 
É amizade 
Sexo sem amor 
É vontade 
Amor é um 
Sexo é dois 
Sexo antes 
Amor depois 
Sexo vem dos outros 
E vai embora 
Amor vem de nós 
E demora 
Amor é cristão 
Sexo é pagão 
Amor é latifúndio 
Sexo é invasão 
Amor é divino 
Sexo é animal 
Amor é bossa nova 
Sexo é carnaval 
Amor é isso 
Sexo é aquilo 
E coisa e tal 
E tal e coisa 
Ai o amor Hmm o sexo, ahh 

 Compositores: Arnaldo Jabor / Rita Carvalho / Rita Lee Jones Carvalho / Rita Lee Jones De Carvalho / Roberto Zenobio Affonso De Carvalho Letra de Amor e sexo © Warner Chappell Music, Inc

 https://www.youtube.com/watch?v=ho-iGFctXe8

31.12.21

A Vida na Hora

 

Foto  Pentti Sammallathi -Korea, Seul, 2016 Three Birds

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não
conheço.
Isso é justo — pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.


E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

 

Wisława Szymborska, Poemas

Foto Pentti Sammallathi- Delhi, India, 1999 Flock of Birds



Que tenhamos a sabedoria de escolher boas coisas em 2022.
Boa sorte a todos nós!


12.11.21

Espera

 



Deito-me tarde 

 Espero por uma espécie de silêncio 

 Que nunca chega cedo 

 Espero a atenção a concentração da hora tardia 

 Ardente e nua 

 É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho 

 É então que se vê o desenho do vazio 

 É então que se vê subitamente 

 A nossa própria mão poisada sobre a mesa 


 É então que se vê passar o silêncio 

 Navegação antiquíssima e solene 


 “Espera”, Sophia de Mello Breyner Andresen


13.9.21

14.6.21

Dez Anos por Aqui

PIRATA 

 Sophia de Mello Breyner 

 Sou o único homem a bordo do meu barco. 
 Os outros são monstros que não falam, 
 Tigres e ursos que amarrei aos remos, 
 E o meu desprezo reina sobre o mar. 

 Gosto de uivar no vento com os mastros 
 E de me abrir na brisa com as velas, 
 E há momentos que são quase esquecimento 
 Numa doçura imensa de regresso. 

 A minha pátria é onde o vento passa, 
A minha amada é onde os roseirais dão flor, 
 O meu desejo é o rastro que ficou das aves, 
 E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

27.1.21

Ao Rio

 

Paul Cézanne - Bridge across a pond - 1890 - Puskin Museum

AO RIO


Ó rio – clepsidra de água metáfora da eternidade

entro em ti cada vez tão diferente

que poderia ser nuvem peixe ou rocha

e tu és imutável como o relógio que marca

as metamorfoses do corpo e as quedas do espírito

a lenta decomposição dos tecidos e do amor



eu nascido do barro

quero ser teu aluno

e conhecer a fonte o coração olímpico

ó tocha fresca coluna cantante

rochedo da minha fé e do desespero



ensina-me ó rio a ser teimoso e persistente

para que mereça na última hora

repouso na sombra do delta imenso

no sagrado triângulo do princípio e do fim


Zbigniew Herbert //Tradução: Ana Cristina César e Grazyna Drabik

28.12.20

Anunciação

 Anunciação- Fra Angelico (Giovanni da Fiesole)- Afresco ca 1492- Museo di San Marco, Firenze



O passado anda atrás de nós

como os detetives os cobradores os ladrões

o futuro anda na frente

como as crianças os guias de montanha

os maratonistas melhores

do que nós

salvo engano o futuro não se imprime

como o passado nas pedras nos móveis no rosto

das pessoas que conhecemos

o passado ao contrário dos gatos

não se limpa a si mesmo

aos cães domesticados se ensina

a andar sempre atrás do dono

mas os cães só aparentemente nos

                                                   [pertencem

pense em como do lodo primeiro surgiu esta

                                                   [poltrona este livro

este besouro este vulcão este despenhadeiro

à frente de nós à frente deles

corre o cão

 

Ana Martins Marques

O Livro das Semelhanças – Ed Cia das Letras  2017

p. 71