Albrecht Dürer -
La grande zolla - 1503 - Galeria Albertina - Viena
Homens sabem o que ocorre.
O vindouro, sabem-no os deuses,
únicos detentores dos fachos, todos eles, plenos.
Do vindouro, o douto pressente
a aproximação. Horas a fio
de estudo circunspecto e, num átimo, um surto
na audição. Rumor de enigma
vem-lhe dos fenômenos, que o rondam.
O zelo impede que se desvie. Nesse ínterim, lá fora,
na rua, surda, nada escuta a chusma.
[1915]
ΣΟΦΟΊ ΔΕ ΠΡΟΣΙΌΝΤΩΝ
Οι άνθρωποι γνωρίζουν τα γινόμενα.
Τα μέλλοντα γνωρίζουν οι θεοί,
πλήρεις και μόνοι κάτοιχοι πάντων των φώτων.
Εκ των μελλόντων οι σοφοί τα προσερχόμενα
αντιλαμβάνονται. Η ακοή
αυτών κάποτ' εν ώραις σοβαρών σπουδών
ταράττεται. Η μυστική βοή
τους έρχεται των πλησιαζόντων γεγονότων.
Και την προσέχουν ευλαβείς. Ενώ εις την οδόν
έξω, ουδέν ακούουν οι λαοί.
[1915] - Konstantinos Kaváfis, em
"Konstantinos Kaváfis: 60 Poemas". [tradução Trajano Vieira]. São
Paulo: Ateliê Editorial, 2007.
li algures que os gregos antigos não
escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu
me perdesse nela,
a paixão grega
Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra exista música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que afaga um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra exista Stevenson.
O que prefere que os outros estejam certos.
Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o mundo.
La représentation du 19 septembre se tiendra en la présence
exceptionnelle de William Kentridge
William Kentridge, accompagné du compositeur Philip Miller,
propose une combinaison de nombreuses formes artistiques. Paper Music est un petit univers sensoriel, mélancolique et
visionnaire.
Music, c’est une pièce pour piano et deux voix de Philip Miller.
Parfois, le piano est seul, et dans sa rêverie mélancolique, il nous rappelle
Ravel et Glass ; parfois, il est accompagné, et le trio nous engloutit par son
énergie, sa maîtrise et son humour. Paper, c’est une
déambulation de Kentridge, chez lui, dans son atelier ; à travers son regard,
on découvre les vicissitudes des mots, on joue avec les matériaux, on voit
apparaître de l’encre de Chine et des traces de café et, grâce à elles, on
accède à une contemplation nouvelle du monde et du quotidien. Paper Music est un ciné-concert de magie sombre, faisant suite à
deux collaborations des artistes sud-africains, The Refusal of Timeet Refuse the Hour. Cette œuvre est
pour eux une manière d’explorer des thématiques nouvelles comme de rendre
hommage aux inventeurs et bidouilleurs du cinéma, dont Georges Méliès fait
évidemment partie.
“Na
selva amazônica, a primeira mulher e o primeiro homem se olharam com
curiosidade. Era estranho o que tinham entre as pernas.
–
Te cortaram? – perguntou o homem.
–
Não – disse ela – Sempre fui assim.
Ele
a examinou de perto. Coçou a cabeça. Ali havia uma chaga aberta. Disse:
–
Não comas mandioca, nem bananas, e nenhuma fruta que se abra ao amadurecer. Eu
te curarei. Deita na rede, e descansa.
Ela
obedeceu. Com paciência bebeu os mingaus de ervas e se deixou aplicar as
pomadas e os ungüentos.
Tinha
de apertar os dentes para não rir, quando ele dizia:
–
Não te preocupes.
Ela
gostava da brincadeira, embora começasse a se cansar de viver em jejum,
estendida em uma rede. A
memória das frutas enchia sua boca de água.
Uma
tarde, o homem chegou correndo através da floresta. Dava saltos de euforia e
gritava:
–
Encontrei! Encontrei!
Acabava
de ver o macaco curando a macaca na copa de uma árvore.
–
É assim – disse o homem, aproximando-se da mulher.
Quando
acabou o longo abraço, um aroma espesso de flores e frutas invadiu o ar. Dos
corpos, que jaziam juntos, despreendiam-se vapores e fulgores jamais vistos, e
era tanta formosura que sóis e deuses morriam de vergonha”.
Este conto pertence ao livro Mulheres,
de Eduardo Galeano (1997) L&PM Pocket
– Se eu
quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita
coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não
consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num
quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo
levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um
volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira,
está ali como… como um acontecimento excessivo… Tem de se arrumar muito
depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é o
modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para um plano mental
de uma unidade de significação. Faço-me entender? Não? Bem, não aguentamos a
desordem estuporada da vida. E então pegamos nela, reduzimo-la a dois ou três
tópicos que se equacionam. Depois, por meio de uma operação intelectual,
dizemos que esses tópicos se encontram no tópico comum, suponhamos , do Amor ou
da Morte. Percebe? Uma dessas abstracções que servem para tudo. O cigarro
consome-se, não é?, a calma volta. Mas pode imaginar o que seja isto todas as
noites, durante semanas ou meses ou anos?
Uma vez fui a um médico.
– Doutor, estou louco - disse. - devo estar louco.
– Tem loucos na família? - perguntou o médico.
– Alcoólicos, sifilíticos?
– Sim, senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, sifilíticos, místicos,
prostitutas,homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
– Não preciso de remédios - disse eu. - Sei histórias tenebrosas, acerca da
vida. De que me servem barbitúricos?
A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo:
conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem
novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas
veja, preste bem atenção. Esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a
prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de
orquídeas.
O mundo é assim, que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar
grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e cinemas. Procure o
seu estilo, se não quer dar em pantanas. Arranjei o meu estilo estudando
matemática e ouvindo um pouco de música. - João Sebastião Bach. Conhece o Concerto
Brandeburguês n. º 5? Conhece com certeza essa coisa tão simples, tão
harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas.
Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui
um estilo. Aplico-o à noite, quando acordo às quatro da madrugada. É simples:
quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis
erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos,
e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz
obscura... Começo a fazer o meu estilo. Admirável exercício, este. Às vezes uso
o processo de esvaziar as palavras. Sabe como é? Pego numa palavra fundamental.
Palavras fundamentais, curioso... Pego numa palavra fundamental: Amor, Doença,
Medo, Morte, Metamorfose. Digo-a baixo vinte vezes. Já nada significa. É um
modo de alcançar o estilo. Veja agora esta artimanha:
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
(...)
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças se distanciam loucamente.
Trata-se do excerto de uma poesia. Gosta de poesia? Sabe o que é a poesia? Tem
medo de poesia? tem o demoníaco júbilo da poesia?
Pois veja. É também um estilo. O poeta não morre da morte da poesia. É o
estilo.
Está a ouvir como essas enormes crianças gritam e gritam, entrando na
eternidade? Note: somos o Poema onde elas se distanciam, Como? Loucamente. Quem
suportaria esses gritos magníficos? Mas o poeta faz o estilo.
Perdão, seja um pouco mais honesto. Seja ao menos mais inteligente. Vê-se bem
que não sou louco. Eu, não. As crianças é que enlouquecem, e isso porque lhes
falta o estilo.
Sabe do que estive a falar? Da vida? Da maneira de se desembaraçar dela? Bem, o
senhor não é estúpido, mas também não é muito inteligente. Conheço. Conheço o
género. Talvez eu já tivesse sido assim. Pratica as artes com parcimónia: não a
poesia, mas as poesias. Cultiva-se, evidentemente. Se calhar está demasiado na
posse de um estilo. Mas escute cá, a loucura, a tenebrosa e maravilhosa
loucura... Enfim, não seria isso mais nobre, digamos, mais conforme ao grande
segredo da nossa humanidade?
Talvez o senhor seja mais inteligente que eu.
Herberto Helder
Os Passos Em Volta
Tinta da China 2016
os homens foram virando cavalos não pela força das pernas mas pela tristeza dos olhos e então os homens foram virando cavalos e as mulheres uma espécie
de pássaro
A representação matemática
das nuvens - arrudA - Editora Patuá - 2014
Inventei um amor pelo prazer de
viver. Inventei que dorme por aqui, que canta e assobia, que puxa pela mão.
Para dançar. Inventei a teoria da meia-luz, a passagem desse vulto se espelha
no teto. Persigo esse amigo eterno que me vê através da pele. Temos a proximidade
dos átomos. Sirvo um café e me chega na boca um doce para morder. Experimenta?
Nosso silencioso estar junto é laranja como o outono. Quanto mais quietos nos
movemos pela casa, mais nos amarramos um ao outro. Nada dizemos. Dançamos
seriamente alegres.