31.3.20

Equilibrismo

Vladimir Lagrange - Siberia Wireman  1979

Os poemas que escrevo
São moinhos
Que andam ao contrário
As águas que moem
Os moinhos
Que andam ao contrário
São as águas passadas



Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo


Adília Lopes – Aqui estão as minhas contas Antologia poética
Organização Sofia de Sousa Silva
Ed. Bazar do Tempo

13.3.20

Anunciação

Virgin Annunciate Antonello da Messina - Pallazzo Abatellis Palermo Sicilia
Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Manuel Bandeira _ Libertinagem, 1930 




v


7.12.19

Convivo muito bem com os cães da rua

Andrew Wyeth - Master Bedroom, 1965, watercolor on paper, Private Collection


Convivo muito bem com os cães da rua.
Me apraz o velho e bom modo de vida
que os faz, sem ter do que cuidar na vida,
medir distâncias de uma a outra rua.

Comparto com os cães o ar da rua.
Se um deles me dirige um riso cardo,
como quem dissesse “E aí, Ricardo?”,
respondo-lhe: “Olá, irmão!”. E a rua,

que até há pouco era só mais uma rua
por onde vadiavam um cão e um bardo
(cada um caçando, do seu jeito, a vida),

me obriga a distinguir, nela, o que é vida
real do que será, quem sabe, um tardo
sinal do quão são irreais o cão e a rua.


Ricardo Aleixo 
Pesado demais para a ventania  p.149 – Todavia -2018 

8.8.19

Ítaca

Henri Matisse - Two Dancers  1937 MoMA NY

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca, 

faz votos que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 

Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez em um porto
para correr às lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
para aprender, para aprender dos doutos.

Tens todo o tempo de Ítaca na mente.
Estás predestinado a alí chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho, enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933) 
in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paes

6.8.19

Em Branco

Vase-Isabel Quintanilla 1969- Pencil on paper- Museu Thyssen - Bornemisza, Madrid

EM BRANCO

Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.

É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.

Da série “Arquitetura de interiores”
Ana Martins Marques

15.6.19

Oito Anos por Aqui

Living Room - Andy Warhol - 1948 (watercolor) *

"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."
João Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas" **
Photo: Collection of the Paul Warhola Family/Courtesy of © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc./Artists Rights Society (ARS), New York

** Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa -Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1988.

15.5.19

Pudesse Eu



Pudesse eu não ter laços
nem limites
Ó vida de mil faces
transbordantes
Para poder responder
aos teus convites
Suspensos na surpresa
dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen

22.2.19

O Douto… A Aproximação

Albrecht Dürer - La grande zolla - 1503 - Galeria Albertina - Viena

Homens sabem o que ocorre.
O vindouro, sabem-no os deuses,
únicos detentores dos fachos, todos eles, plenos.
Do vindouro, o douto pressente
a aproximação. Horas a fio

de estudo circunspecto e, num átimo, um surto
na audição. Rumor de enigma
vem-lhe dos fenômenos, que o rondam.
O zelo impede que se desvie. Nesse ínterim, lá fora,
na rua, surda, nada escuta a chusma.

[1915]


ΣΟΦΟΊ ΔΕ ΠΡΟΣΙΌΝΤΩΝ
Οι άνθρωποι γνωρίζουν τα γινόμενα.
Τα μέλλοντα γνωρίζουν οι θεοί,
πλήρεις και μόνοι κάτοιχοι πάντων των φώτων.
Εκ των μελλόντων οι σοφοί τα προσερχόμενα
αντιλαμβάνονται. Η ακοή

αυτών κάποτ' εν ώραις σοβαρών σπουδών
ταράττεται. Η μυστική βοή
τους έρχεται των πλησιαζόντων γεγονότων.
Και την προσέχουν ευλαβείς. Ενώ εις την οδόν
έξω, ουδέν ακούουν οι λαοί.

[1915]

- Konstantinos Kaváfis, em "Konstantinos Kaváfis: 60 Poemas". [tradução Trajano Vieira]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007. 

21.12.18

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

Rinko Kawauchi - Halo



li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

de A Faca não Corta o Fogo Herberto Helder



18.10.18

Os Justos

Mark Rothko - No.5 1950 (dated on reverse 1949)

Os justos

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra exista música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que afaga um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra exista Stevenson.
O que prefere que os outros estejam certos.
Essas pessoas, que se desconhecem, estão salvando o mundo.


Jorge Luis Borges
Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, p. 346



19.9.18

Paper Music - William Kentridge & Philip Miller [Trailer]




Paper Music

La représentation du 19 septembre se tiendra en la présence exceptionnelle de William Kentridge

William Kentridge, accompagné du compositeur Philip Miller, propose une combinaison de nombreuses formes artistiques. Paper Music est un petit univers sensoriel, mélancolique et visionnaire. 

Music, c’est une pièce pour piano et deux voix de Philip Miller. Parfois, le piano est seul, et dans sa rêverie mélancolique, il nous rappelle Ravel et Glass ; parfois, il est accompagné, et le trio nous engloutit par son énergie, sa maîtrise et son humour. Paper, c’est une déambulation de Kentridge, chez lui, dans son atelier ; à travers son regard, on découvre les vicissitudes des mots, on joue avec les matériaux, on voit apparaître de l’encre de Chine et des traces de café et, grâce à elles, on accède à une contemplation nouvelle du monde et du quotidien. Paper Music est un ciné-concert de magie sombre, faisant suite à deux collaborations des artistes sud-africains, The Refusal of Timeet Refuse the Hour. Cette œuvre est pour eux une manière d’explorer des thématiques nouvelles comme de rendre hommage aux inventeurs et bidouilleurs du cinéma, dont Georges Méliès fait évidemment partie.

Ann Masina, voix
Joanna Dudley, voix
Vincenzo Pasquariello, piano
William Kentridge, conception vidéo
Philip Miller, composition
Greta Goiris, création costumes

Philarmonie de Paris - Cité de la Musique
19 et 20 Septembre 2018   20h30

7.9.18

O amor

Auguste Rodin  Danseuse nue vers 1900

O amor

“Na selva amazônica, a primeira mulher e o primeiro homem se olharam com curiosidade. Era estranho o que tinham entre as pernas.
– Te cortaram? – perguntou o homem.
– Não – disse ela – Sempre fui assim.
Ele a examinou de perto. Coçou a cabeça. Ali havia uma chaga aberta. Disse:
– Não comas mandioca, nem bananas, e nenhuma fruta que se abra ao amadurecer. Eu te curarei. Deita na rede, e descansa.
Ela obedeceu. Com paciência bebeu os mingaus de ervas e se deixou aplicar as pomadas e os ungüentos.
Tinha de apertar os dentes para não rir, quando ele dizia:
– Não te preocupes.
Ela gostava da brincadeira, embora começasse a se cansar de viver em jejum, estendida em uma rede. A memória das frutas enchia sua boca de água.
Uma tarde, o homem chegou correndo através da floresta. Dava saltos de euforia e gritava:
– Encontrei! Encontrei!
Acabava de ver o macaco curando a macaca na copa de uma árvore.
– É assim – disse o homem, aproximando-se da mulher.
Quando acabou o longo abraço, um aroma espesso de flores e frutas invadiu o ar. Dos corpos, que jaziam juntos, despreendiam-se vapores e fulgores jamais vistos, e era tanta formosura que sóis e deuses morriam de vergonha”.

Este conto pertence ao livro Mulheres, de Eduardo Galeano (1997) L&PM Pocket