16.6.20

A Propósito das Estrelas

Van Gogh - Noite Estrelada - jun 1889  MoMa  NY



A propósito de estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Adília Lopes
Um jogo bastante perigoso- Adilia Lopes

14.6.20

Nove Anos por Aqui

Emile Zola- Edouard Manet - 1868-  Musée d'Orsay  Paris



Epigrama

Entre sonho e lucidez, as incertezas.
Entre delírio e dever, as tempestades.
Ai, para sempre serei seu prisioneiro,
Neste patíbulo amargo de saudades ...


José Paulo Paes in Poesia completa
Companhia das Letras - 2008

5.4.20

Delírios



Pablo Picasso- O beijo - 1969 Musée National Picasso - Paris


O beijo do Jogo da Amarelinha

“Toco sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se saísse da minha mão, como se pela primeira vez sua boca se entreabrisse, e para mim basta fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar, a cada vez faço nascer a boca que desejo, a boca que minha mão escolhe e desenha no seu rosto, uma boca escolhida entre todas, com soberana liberdade escolhida por mim para ser desenhada com minha mão no seu rosto, e que por um acaso que não tento compreender coincide exatamente com sua boca, que sorri por baixo da que minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto você me olha, cada vez mais de perto e então brincamos de ciclope, nos olhamos cada vez de mais perto e os olhos crescem, se aproximam um do outro, se superpõem e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam calidamente, mordendo‑se com os lábios, apoiando levemente a língua nos dentes, brincando em seus recintos, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um silêncio. Então minhas mãos procuram afundar‑se em seus cabelos, acariciar lentamente a profundidade de seus cabelos enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E há uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e sinto você tremer contra mim como uma lua na água.”


O Jogo da Amarelinha – Julio Cortázar   Cia das Letras
Tradução de Eric Nepomuceno - Cia das Letras
( beijo  que Maga e Oliveira trocam no capítulo 7 )


31.3.20

Equilibrismo

Vladimir Lagrange - Siberia Wireman  1979

Os poemas que escrevo
São moinhos
Que andam ao contrário
As águas que moem
Os moinhos
Que andam ao contrário
São as águas passadas



Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo


Adília Lopes – Aqui estão as minhas contas Antologia poética
Organização Sofia de Sousa Silva
Ed. Bazar do Tempo

13.3.20

Anunciação

Virgin Annunciate Antonello da Messina - Pallazzo Abatellis Palermo Sicilia
Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Manuel Bandeira _ Libertinagem, 1930 




v


7.12.19

Convivo muito bem com os cães da rua

Andrew Wyeth - Master Bedroom, 1965, watercolor on paper, Private Collection


Convivo muito bem com os cães da rua.
Me apraz o velho e bom modo de vida
que os faz, sem ter do que cuidar na vida,
medir distâncias de uma a outra rua.

Comparto com os cães o ar da rua.
Se um deles me dirige um riso cardo,
como quem dissesse “E aí, Ricardo?”,
respondo-lhe: “Olá, irmão!”. E a rua,

que até há pouco era só mais uma rua
por onde vadiavam um cão e um bardo
(cada um caçando, do seu jeito, a vida),

me obriga a distinguir, nela, o que é vida
real do que será, quem sabe, um tardo
sinal do quão são irreais o cão e a rua.


Ricardo Aleixo 
Pesado demais para a ventania  p.149 – Todavia -2018 

8.8.19

Ítaca

Henri Matisse - Two Dancers  1937 MoMA NY

Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca, 

faz votos que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 

Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez em um porto
para correr às lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
para aprender, para aprender dos doutos.

Tens todo o tempo de Ítaca na mente.
Estás predestinado a alí chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho, enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Konstantinos Kaváfis (1863-1933) 
in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paes

6.8.19

Em Branco

Vase-Isabel Quintanilla 1969- Pencil on paper- Museu Thyssen - Bornemisza, Madrid

EM BRANCO

Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.

É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.

Da série “Arquitetura de interiores”
Ana Martins Marques

15.6.19

Oito Anos por Aqui

Living Room - Andy Warhol - 1948 (watercolor) *

"Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois."
João Guimarães Rosa, em "Grande Sertão: Veredas" **
Photo: Collection of the Paul Warhola Family/Courtesy of © The Andy Warhol Foundation for the Visual Arts, Inc./Artists Rights Society (ARS), New York

** Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa -Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1988.

15.5.19

Pudesse Eu



Pudesse eu não ter laços
nem limites
Ó vida de mil faces
transbordantes
Para poder responder
aos teus convites
Suspensos na surpresa
dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen

22.2.19

O Douto… A Aproximação

Albrecht Dürer - La grande zolla - 1503 - Galeria Albertina - Viena

Homens sabem o que ocorre.
O vindouro, sabem-no os deuses,
únicos detentores dos fachos, todos eles, plenos.
Do vindouro, o douto pressente
a aproximação. Horas a fio

de estudo circunspecto e, num átimo, um surto
na audição. Rumor de enigma
vem-lhe dos fenômenos, que o rondam.
O zelo impede que se desvie. Nesse ínterim, lá fora,
na rua, surda, nada escuta a chusma.

[1915]


ΣΟΦΟΊ ΔΕ ΠΡΟΣΙΌΝΤΩΝ
Οι άνθρωποι γνωρίζουν τα γινόμενα.
Τα μέλλοντα γνωρίζουν οι θεοί,
πλήρεις και μόνοι κάτοιχοι πάντων των φώτων.
Εκ των μελλόντων οι σοφοί τα προσερχόμενα
αντιλαμβάνονται. Η ακοή

αυτών κάποτ' εν ώραις σοβαρών σπουδών
ταράττεται. Η μυστική βοή
τους έρχεται των πλησιαζόντων γεγονότων.
Και την προσέχουν ευλαβείς. Ενώ εις την οδόν
έξω, ουδέν ακούουν οι λαοί.

[1915]

- Konstantinos Kaváfis, em "Konstantinos Kaváfis: 60 Poemas". [tradução Trajano Vieira]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007. 

21.12.18

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,

Rinko Kawauchi - Halo



li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

de A Faca não Corta o Fogo Herberto Helder