29.7.12
27.7.12
Urgências inadiáveis
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| Egon Schiele - Liebespaar - Lápis, aquarela e guache sobre papel - 1913 |
As coisas não pareciam
andar muito bem naquele dia. Mas , estava difícil se concentrar.
Na lista de compras do
mercado havia esquecido de anotar o principal, amêndoas e limão.
Como é que poderia fazer a receita que tinha prometido
aos amigos para o jantar ?
Chegara atrasada à reunião
que teoricamente dividiria sua vida
profissional em antes e depois. Não foi por descaso, nem imprudência. Os táxis
passavam lotados , a chuva não parava de cair e ela teve que caminhar por 10
longas quadras com os sapatos encharcados para chegar, completamente destruída,
ao local do encontro.
Todos a olharam esquisito
quando apareceu na sala. Nem adiantava se desculpar, era só montar a cara de
experiente e rezar para que a
oportunidade “de ouro” não tivesse se esvaído pelos vãos das pedras da rua
junto com a chuva.
A urgência do encontro a
tirava do sério. Todo o resto da vida virara coadjuvante, tempo a ser
preenchido até o momento imaginado, idealizado, saboreado , muito antes de se
fazer real.
Uma amiga tentou conversar
sobre isso. Não deixou nem que ela terminasse a frase. Só ela entendia o que era essa paixão que lhe
consumia ossos, pele, e carne , e tinha uma parte divina escondida na matéria
fluida que alguns chamariam de alma.
Sempre marcaram encontros
longe de tudo e de todos.Não podiam imaginar que alguém pudesse ousar dividir a atenção tola de um para o
outro.
Certa vez, perto do mar,
ele parara a bicicleta no meio da rua para
abraçá-la e, beijando-a sem parar chorava dizendo quanto estava apaixonado,.
Essa lembrança sempre a fazia sorrir, associada a lançamentos no espaço . Lançamentos suicidas até que o para-quedas abrisse, e, depois do tranco, viesse o calor que invadia os dois corpos, que fervendo, suando, babando, lambiam urgências inadiáveis.
Essa lembrança sempre a fazia sorrir, associada a lançamentos no espaço . Lançamentos suicidas até que o para-quedas abrisse, e, depois do tranco, viesse o calor que invadia os dois corpos, que fervendo, suando, babando, lambiam urgências inadiáveis.
25.7.12
E o índio estava certo
Como é bom conhecer lugares mágicos. A
Patagônia é um deles.
Lá a natureza em macro se debruça sobre nós. A luz mais austral
é belíssima e varre a paisagem em diagonal , formando contornos incríveis.
E curiosamente , lá estando, todos os parâmetros por nós
conhecidos vão se alterando. Quando você se dá conta, está comendo somente o
necessário. Se andou muito , gastou muita energia, come mais. Se choveu e ficou
dentro de casa lendo, come menos. É instantâneo e entra sem você perceber.
Mas o que me perturbou mais foi a alteração da percepção da
passagem do tempo. Cinco minutos lá demoram muiiiiito para passar. Todas as
tentativas de nosso grupo de prever que horas eram deram errado, e muito !
No segundo dia de estadia tínhamos a sensação que estávamos lá
há uma semana! É muito impressionante e
ao mesmo tempo compensador, estranhamente novo.
Por conta dessas reflexões sobre o tempo, lembramos da história do índio mexicano, que como guia de uma caminhada
na mata, pedia para que a caravana parasse em certos trechos, em tempos
indefinidos, porque precisavam esperar para que o espírito chegasse junto.
Mistérios de uma natureza poderosa e desconhecida.
Fatos curiosos começaram a acontecer comigo quando voltei para casa.
Na primeira noite, acordei no escuro, como sempre faço, e levantei para tomar água . Estava em meu quarto, e não conseguia achar a porta de saída. Fiz algumas tentativas, fiquei desacorçoada, não era urgente, voltei para a cama meio transtornada. Respirei e depois de um tempo, tentei novamente e aconteceu a mesma coisa, saí batendo o nariz no armário, mas então morria de rir da estontice ! Tateando acendi a luz sem querer e me achei. Ufa!
Na noite seguinte, muito resfriada , fiquei um tempo ponderando
onde eu iria encontrar uma farmácia para comprar um remédio . Fiquei fazendo
planos de sair do hotel para a esquerda , pois lembrava que havia visto uma
farmácia por lá. Nesse dia eu já estava em Buenos Aires... Acordada me vi novamente
em minha cama .
Meu espírito ainda não havia chegado A natureza tão forte, me
aprisionou por lá mais um pouco. Quanta regalia!
22.7.12
Sobre Pentimentos
O mais importante e bonito do mundo, é isso : que as pessoas não
estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre
mudando. Afinam ou desafinam ...
Guimarães Rosa
16.7.12
Para falar da lebre
Existem alguns na região do Parc Monceau .Dois desses exemplos
são o Jacquemart-André e o Nissim de Camondo.
Em geral território de poucos turistas e
prato cheio para quem gosta de historia, sociologia e savoir vivre de uma Paris de
outros tempos.
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| Picnic en Famille - Martial Caillebotte |
No Nissim de Camondo que mantém intacta o que foi a casa dessa
família dizimada pelo nazismo, meu interesse maior na visita, era conhecer as
cozinhas preservadas com seus fornos e fogões gigantescos ornamentadas com
formas e panelas de cobre maravilhosas. Ver os diversos cômodos , para lavagem
de alimentos, realização de conservas, a sala do chef , que esta família abonada
teve condições de manter, de onde, por
um monta cargas subiam os alimentos para os salões nos jantares cheios de
convidados ilustres. Camondo foi conselheiro do Louvre para aquisição de obras de arte
e por aí pode-se imaginar o bom gosto e importância de obras ali
expostas. A trajetória da família pelas tragédias do século XX é muito triste e
é tocante imaginar isso percorrendo aqueles ricos cômodos.
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| Musée Nissin de Camondo |
Foi com essas visitas bem presentes na cabeça que comecei a ler
A Lebre dos Olhos de Âmbar. Livro documental de Edmund de
Waal.
Este ceramista inglês, herda uma
coleção de miniaturas japonesas, bibelôs chamados “netsuquês” e decide
pesquisar o caminho traçado por ela até chegar às suas mãos. Quem a iniciou foi
seu antepassado Charles Ephrussi, célebre figura parisiense da segunda metade
do século XIX também, conhecedor de arte, amigo de Degas, Renoir, Manet e,
consta que sua figura inspira Proust no personagem de Swann.
Os relatos no livro são cheio de
detalhes históricos e artísticos saídos de pesquisa criteriosa feita pelo
autor, e a história começa na mesma época desses hotels particuliers. (Charles também construiu seu hôtel, que hoje está descaracterizado). Nela
essas personagens, em principio nomes de museu, ganham vida, transitam pelos salões em saraus e exposições
. Ephrussi,
era crítico de arte e comprador atento dos novos talentos que surgiam.
O maço de aspargos pintado por Manet que ilustra este post foi
encomendado por ele, que empolgado resolve pagar a mais pelo quadro. No outro
dia recebe o “aspargo que falta” com um bilhete de Manet. Brincadeira de amigos.
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| L'Asperge Manquante - Manet |
De Paris a coleção de netsuquês segue
para Viena presente de casamento de Charles para seu primo Viktor. Histórias da Segunda
Guerra você já ouviu muitas, leu livros , viu filmes, mas a descrição dia a dia
da invasão do exército nazista em
Viena, personificada na família de Viktor
Ephrussi é de tirar o fôlego .O livro pode ser
visto por muitos vieses, mas em síntese mostra um retrato do anti semitismo, no
principio latente, na Europa do século XIX , até culminar na tragédia nazista
do século XX.
A coleção escapa
ilesa e acaba retornando ao Japão pelas mãos de um tio avô de de Waal de quem
ele herda O livro é uma obra belíssima,
inteligente, um verdadeiro prazer.
As primeiras críticas a este livro , foram feitas por Daniel
Piza Reproduzo aqui um parágrafo escrito
por ele que fala melhor desse prazer : “...
Não se trata de ficar exibindo com
empáfia as informações sobre aqueles bibelôs orientais em mansões européias; o
desejo é entender o contexto, a rede de biografias que evoca, para meditar com
o leitor sobre nosso apego ou desapego às coisas. Ao menos para mim este é o
tema maior, o motivo que anima toda a composição do livro”.
Bom proveito !
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| Musée Nissim de Camondo |
Musée Nissim
de Camondo
63, rue de Monceau 75008 Paris
Horários :
Quarta a Domingo 10h - 17h30 h
Metro: Monceau
Metro: Monceau
Musée
Jacquemart-André
158, boulevard Haussmann - 75008 PARIS
Metro : Saint-Augustin,Miromesnil ou Saint-Philippe du Roule
A Lebre dos Olhos de Âmbar
Edmund de Waal
Editora Intrínseca Outubro 2011
1.7.12
24.6.12
Retrato fiel
Musée Nissim de Camondo
63, rue de Monceau 75008 Paris
63, rue de Monceau 75008 Paris
Horários : Quarta a Domingo 10h - 17h30 h
Metro: Monceau ou Courcelles
Metro: Monceau ou Courcelles
16.6.12
Boulangerie
La Badine de Martine
Patrick Desgranges
74 rue Crozatier 75012 Paris
métro Ledru Rollin ou Faidherbe-Chaligny
10.6.12
Despojamento
31.5.12
Salumeria Roscioli
Acho que não preciso dizer mais. Em 6 dias de Roma, jantei 3
vezes no Roscioli. Tornou-se de um momento para o outro “minha casa”, meu colo,
e a certeza de comer sem chances de erro. Na terceira vez que lá estive, foi bem isso. Sozinha na cidade,
última noite, só confort food, garçons
que já haviam se tornado “amigos” e um dos donos, Alessandro Roscioli,
oferecendo espumante para me distrair da demora pela mesa, que embora reservada,
(condição essencial ), não era liberada pelo cliente anterior.
Ali Roma se apresentava inteira nos sabores e nas paisagens
imaginárias gravadas em mim desde a infância. Salumeria Roscioli é
mercearia e restaurante. Na vitrine ,
logo na entrada, queijos, embutidos e presuntos
de vários lugares da Europa, pata negra espanhol, presuntos de porcos pretos
portugueses e claro, os melhores Parma italianos.
Nas prateleiras, vinhos de todas as regiões da Itália, de grandes , mas
sobretudo de pequenos produtores especiais. Tutto perfetto !
Por conta da minha freqüência pude experimentar várias coisas, e
repetir outras pelas quais me apaixonei, como a salada de rúcula selvática e
alcachofras de doçura plena que repeti todos os dias. Os arancini, bolinhos de arroz
sequinhos, não precisei pedir, faziam parte da acolhida diária.
Com os pães deliciosos do couvert, fabricados pela famosa
padaria, Antico Forno Roscioli, dos
mesmos proprietários , provei a mortadela, apresentada no cardápio como a “verdadeira
de Bologna”, artesanal , servida com Parmigiano “de vacas castanhas” maturado
36 meses, e posso assegurar que era, com certeza um outro produto do que aquele
que estamos habituados a comer .
Em outro dia provei um presunto sugerido pelo “amigo” garçon que
não pude recusar . Muitos dos pratos do
menu vem com os ingredientes com “nome e sobrenome”. São provenientes dos
melhores produtores da Itália. Então um simples Carbonara ou um Cacio e Pepe, especialidade romana por
excelência, duas das massas que experimentei, estavam excelentes e irretocáveis
.
Permanecendo nos clássicos, como sempre foi minha intenção ali, a bisteca Fiorentina, sequinha servida com purê foi a opção certeira em um dia e no outro um rosbife servido com pequenas batatas mostrou a excelência da carne “de pedigree” cujo nome não gravei para escrever aqui.
Um Amarone, do Veneto, encorpado e com personalidade nos alegrou
nesse percurso.
Não comi sobremesa, pois o café ( não existe café melhor que os da Itália !) era servido com essas roscas para serem banhadas no chocolate quente derretido, amargo e finíssimo !
Ótimas lembranças gustativas desta viagem
de tão poucos dias.
Salumeria Roscioli
Via dei
Giubbonari, 21
Campo di
Fiori Roma
Tel 06 6875287
Tel 06 6875287
Antico Forno
Roscioli
Via dei
Chiavari, 34
Campo di
Fiori Roma
Tel 06
6864045
26.5.12
Atente os ouvidos
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| Basilica de San Marco - Veneza - Cúpula do Genesis |
Você já se deu conta da quantidade de pessoas que se cruza
durante o dia que estão falando de deus, apostolando, citando versículos e
evangelhos, doutrinando ? Preste atenção e me diga.
No supermercado o repositor da gôndola de verduras fica
buzinando na orelha do repositor da das frutas. Já cruzei com essa situação
várias vezes e me ocorre que deve ser “eficaz” , porque a vitima não tem por
onde fugir, pois tem que cumprir o
cronograma de trabalho, não pode virar as costas e ir fazer outra coisa em
outro lugar. Essa missão doutrinadora está tomando conta das cidades. Andando
na rua você cruza com pessoas “apostolando”. No ônibus, no metrô, tem sempre alguém falando com veemência e entusiasmo
para um outro que ouve indefeso.
| São Benedito - Mouro |
E outra. Quantas pessoas passaram a incorporar o “vai com deus” ,“fica com deus” nas suas saudações de despedida. Não sou atéia, muito pelo contrário, mas confesso que esse hábito, jogado assim ao léu, me incomoda bastante . Esse tipo de adeus era carinhosamente murmurado por algumas mães, madrinhas ou tias evidenciando um sentido amoroso de cuidado, muito maior que religioso. Agora banalizou-se, virou “mandinga”parece.
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| Sebastien Munster -Les monstres marins & terrestres lesquelz on trouve en beaucoup de lieux es
parties septentrionales - Cosmographie Universelle - 1560
São exemplos pequeninos, cotidianos, para não falar das guerras
religiosas através da história e tão cruentas ainda nos dias de hoje . Gente
matando e morrendo por uma fé que acreditam “superior” a do seu vizinho.
Leio todos os suplementos de turismo dos jornais. No Estadão de
15/5 a coluna do “Mr Miles” , onde
viajantes colocam suas dúvidas e comentários para serem respondidos pelo
colunista, chamava-se : “Quer falar ?
Então ouça primeiro.” Leia. “Mr Miles”
responde a um pastor que vai se juntar a um grupo de outros em
Moçambique, para “ensinar” a palavra do senhor ao “sofrido povo daquele país”.
Com toda a verve e educação características de seu estilo ele coloca firme e
delicadamente sua posição sobre o ato de viajar para descobrir o mundo e ,
desfia considerações importantes sobre atitudes doutrinárias através dos tempos
resumindo : “... cada povo tem sua
própria maneira de rezar e agradecer “ . Ouça.
Tenho um amigo budista que me descreveu as religiões como uma roda
de bicicleta. Elas estão representadas nos aros que convergem para o centro,
que é o mesmo para todas. Quando mais perto você estiver dele mais próxima sua
religião estará da outra. É isso .
Pela diversidade e liberdade, que Deus abençoe a todos nós !
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